Domingo, Agosto 31, 2008

A Grande Festa da Vida

Eu vivo na maior parte do tempo como se não fosse comigo. Como se eu só estivesse aqui por uma coincidência, acompanhando alguma coisa ou alguém. Fugindo de cada momento para qualquer ficção que esteja disponível, ou simplesmente adiando alguma coisa que deveria chegar. Sou num universo que é como um ponto de ônibus, um vago interstício desinteressante e passivo onde muitas coisas acontecem mas basicamente não importa, em breve o ônibus vai chegar e vou estar bem longe dali.
Sinto tanta falta de que o mundo me interpele e me conte: escuta, é com você agora, não há ninguém entre nós, nada... É a sua vida que está em processo nesse exato instante e você está na vanguarda dela. Porque não acredito que possa mudar. O mundo parece uma eterna repetição de tudo o mais, todos os dias se arrastando em fila como morosos elefantes, tão pouco frescor nesses momentos batidos. Não parece que eu tenha alguma escolha afinal... porque eu estou sempre me cobrando; sempre me empurrando; porque eu sei que posso ir além. Mas logo ali tem uma barreira e eu nunca passei dela. Não conheço o outro lado, não full-blown e cheio de efeitos especiais. Me contentei com quinquilharia mágica de terceira categoria, "gear de padaria" como diriam os meninos... Conhecimentos de padaria, dinheiro de padaria, amizades de padaria, romances de padaria. Ah. Eu não acho que meus amigos ou a mulher que eu amo sejam de alguma forma inferiores a qualquer coisa. O problema é que simplesmente não parece de verdade. Como eu disse, não é comigo. Ou é, mas eu nunca consigo a coisa em si! Eu nunca consigo o amor como ele deveria ser, a amizade como deveria ser, a viagem como deveria ser, a festa como... etc. É a grande frustração de viajar em geral, eu chego naquele lugar distante que eu sempre almejei, tipo São Paulo, e descubro que é só mais uma... cidade. Uma repetição ligeiramente diferente de um conceito já familiar. Certo, tem algo de legal lá, aquele ar elétrico e aquelas pessoas de modos estranhos, mas... e agora, o que faço? Agora que estou aqui? Talvez eu não tenha chegado.
Claro que tem os devires... Aquelas horas onde eu estou doido de maconha, e piso na areia da praia e o mar é tudo, abrindo asas de costa, vento frio e sol quente na cara, cheiro forte de sal, tudo totalmente intenso e cheio de frescor. Claro que tem essas horas. Mas será que é pedir muito que a vida seja assim? Pelo menos mais do que essa coisa rara e ocasional, como se apaixonar ou reunir todos os amigos num lugar incrível e distante? Lá em Porto Seguro, esse ano, foi tão isso. Quando eu estou a sós com a Kátia e esqueço de quem sou (os grandes, os melhores momentos) perdido no olhar dela, devorado por aqueles olhos brilhantes, cabeça girando por causa da paixão, é incrível. Mas quando estamos simplesmente por aí agindo como um casal... é como se fosse sempre um grau a menos de realidade do que o romance do Danilo com a Nádia, ou o de qualquer pessoa que eu idealize como Grande Pessoa. E Porto Seguro foi tão... passado, tão nada novo, tão apenas-o-esperado. Eu parei de acreditar no inesperado, e consequentemente ele não acontece - pelo menos porque não estou receptivo aos "bons" inesperados.
Esse sábado eu sonhei com uma orgia. Sábado passado eu sonhei com o mesmo tema. Ambos eu dormi no mesmo lugar, na verdade segui uma pacata (e reclusa) rotina muito similar. E esse mesmo sonho espoletou duas vezes, como uma faísca sendo produzida no atrito de engrenagens muito pesadas e velhas. Nesses dois sonhos a orgia não estava acontecendo, nem tinha acontecido; estava sempre por vir, sempre na iminêncina... Como se o ônibus fosse finalmente chegar mas nunca chegasse, me deixando suspenso aqui neste enquanto-isso asignificante. O Maffesoli, sociólogo o qual andei lendo, diz que o tempo de Dionísio voltou; que a tal da pós-modernidade na verdade é o retorno o homem ao gozo do transitório e do aparente. O que seria primordialmente uma boa coisa, uma revalorização do ser, a queda desse maldito meme de transcendência que infectou nosso pensamento. É bem verdade, eu enxergo muito disso despontando ainda timidamente nos mais jovens - a geração que segue a minha é uma particularmente estranha. Eu fui metal e andei na praça da liberdade, e isso foi alguma coisa. Eles estão vivendo em um outro mundo. A diferença é de cinco, seis anos mas a vida que eles levam é praticamente outra. Eu os invejo. Eu sinto que meu tempo passou e que eles estão curtindo o que eu não pude. Que agora meus amigos vão adentrar casamentos, constituir família, arranjar empregos e vai ter sido isso aí. E eu não quero, não vou, de forma alguma. Eu tô aqui nesse esforço pra me superar e construir uma relação - várias, na verdade, por definição - poliamoristas, como um investimento no que acredito. Uma forma de driblar o esquema truncado da família nuclear e tentar fazer algo novo. É difícil ser poli nesse mundo que eu vivo, quase sozinho com isso. Destruir o mito romântico na minha cabeça foi a única forma de escapar da valorização do outro como forma de justificar a própria existência; foi a única forma de pegar nas minhas próprias mãos as rédeas de minha vida. Mas eu perdi um encantamento com essa vida tão grande desde que eu larguei o mito romântico.
Eu sonhei dois sábados seguidos com uma orgia iminente que sempre escapava. Isso pode soar aleatório mas pra mim é tão forte. E não em nenhum sentido simbólico, é no mais literal: o eixo que orienta a minha vida é o sexo. Ainda é a forma pela qual eu articulo as forças mais profundas de meu ser, de minha magia, de minha caminhada por aqui. Eu nunca fui um pegador e não sou satisfeito com isso. Não tenho absoluta preocupação de pegar muitas mulheres para parecer foda e pintudo para meus amigos; não é por eles, ou eu poderia dizer talvez, seja uma das poucas coisas que eu não faço pelos outros; é pela coisa em si. Pela coisa real. (Se eu ainda acreditasse nas mulheres. Que eu poderia conhecer várias delas que são incríveis, algumas delas quem sabe intelectuais. tenho de falar disso fora de parênteses, é importante). Porque eu estou cansado de que olhem pra mim e decidam se eu sou do tipo que pensa sobre a vida ou que vive a vida. Eu sou os dois! Ou, eu quero ser os dois. Porque a verdade é que eu primariamente penso. É só que eu sei que não existe uma oposição. Eu só tenho de aprender a viver. É sempre isso, um aprendizado que precisa ser feito... Aprender a ser cafajeste, aprender a conversar casualmente com desconhecidos. Aprender a dar idéia em mulher. Como eu disse, tudo sempre passa pelo sexo. Se algum dia eu me tornar poderoso e acreditar em mim mesmo e em minha vida é porque ou enquanto eu estou pegando um monte de mulheres. E isso não quer dizer que eu esteja cheio de relações superficiais e transitórias; e sim que eu estou mantendo uma série de romances - cada um indiosincrático, cada um criativo a sua forma, engrandecedor (como o com a Kátia é). E todas essas mulheres tem romances com outras pessoas e/ou entre si e somos com uma grande tribo. E porfim chegamos a orgia. Alguns dos relatos que eu li sobre os hippies nos late 60 me fazem parecer que eles viveram a vida que eu quis: uma vida dedicada à fruição do ser; uma vida cheia de belas mulheres com algum conteúdo, interessadas em alguma coisa, portadoras de suas indiosincrasias. O lance da mulher intelectual que eu disse; eu acho que nunca conheci uma que gostasse da coisa de pensar como eu gosto. Não que eu não tenha conhecido mulheres inteligentíssimas, mas que tivesse um amor ao pensamento, que tivesse como um hobbie pensar... e que soubesse que isso não se opõe a viver a vida. Que não olhasse para mim e se perguntasse se eu vivo a vida ou penso a vida. Essas oposições, vadia versus mulher pra casar, calhorda versus príncipe encantado não fazem o menor sentido. Porque elas desconhecem a raposa, a sedução da raposa e da rainha fada, traição e entrega na mesma mão, poder e submissão simultâneos. As oposições categóricas ignoram os paradoxos - porque este é um mundo de paradoxos. Exceto que ele não parece isso, exceto que ele se arrasta, exceto que todos os dias é uma vida de mentira onde as coisas só se repetem e essa barreira que separa a minha vida de uma Grande Festa da Vida nunca é atravessada. Que o mundo nunca cessa de ser uma simulação fantasiosa do mundo. Eu não posso aceitar que é só isso.
Por isso preciso de velocidade. Por isso preciso devir, devir furiosamente, destruir meu eu no processo. Sábios são, dizia Zaratustra, aqueles que produzem a própria destruição. Para desabrochar em um super-homem, dar luz a uma estrela dançarina. Explodir de súbito ao invés de queimar aos poucos... Isso nunca foi para mim, tão caseiro, tão tímido, tão... passadio, esvanecente, passivo. Não sei fazer diferente e hoje já não acredito que eu possa - como acreditei por esses últimos anos! - aprender a viver.

Mr. Six às 02:11

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Terça-feira, Agosto 12, 2008

Le Pendu

Suspenso pelo pé. Suspeno na teia da vida, por um fio, por um fio. Não está lá nem cá; é uma transição, mas uma diferente da carta da morte, porque é engendrada. É uma carta falsa, intrinsicamente mentirosa. Não é a toa que as leituras "baixas" do tarot entendam o enforcado como um coitadinho aos olhos dos outros ou alguém que finge sofrimento. O enforcado se pendura para causar dor a si mesmo, ele erige um suplício; a dor é fictícia mas dói mesmo assim. Porque ele sabe, a todo momento, que pode sair dali. Que nem Jesus pendurado na cruz, que nem Odin pregado em Yggdrasil, não há algo realmente a ser perdido. Mas é preciso estar por um fio para atingir a iluminação; porque trata-se disso, um sacrifício pela iluminação. A teia da vida foi a vovó aranha quem teceu, e não é coincidência ser ela que na mitologia nativo-americana quem rouba dos povos do leste o segredo do fogo e dá aos humanos e animais. Ela porta a chama e ela entrega a chama, é pendurado em seus fios que se descobrem os segredos (run). O enforcado constrói um constrangimento proposital, ele se põe cativo e amarrado, para exercer a mais fina de todas as artes: a arte do escape.

Para os gnósticos era assim que funcionava: o deus falso criou a matéria, e consequentemente nós. Então o deus amoroso e verdadeiro mandou seu filho - puro espírito - para falar com os homens que mesmo na criação falsa do deus falso, havia a centelha de verdade. E Jesus nunca sofreu na cruz porque ele não era corpo, ele só pareceu sofrer, o verdadeiro cristo espiritual estava dando gargalhada algumas árvores de distância do calvário. Todo mundo tem um cristo interior, e como diz nos invisíveis, "and now it's a rescue operation": essa fagulha-crística tem de escapar das gaiolas do mundo falso da matéria, do poder falso dos reis do mundo, da justiça vazia dos senhores alados do céu. Eu to contando isso porque esse mito de alguma forma permeia nosso imaginário moderno, especialmente em Matrix. É uma idéia podre porque parte de uma negação primordial do SER, torna esse mundo e essa vida irreais perto de outro além (Invisíveis de novo: "the gnostic error is to hate matter. Matter is the part of the heaven we can touch"). Nietzsche deixa bem claro a grande bosta que isso é. Mas está aqui, em todo o pensamento moderno... Uma essência criativa que busca expandir (liberdade individual), uma força constritiva que busca reprimir (estado? escola? família? sociedade?), e é nessa dicotomia que a modernidade dança, balançando de um lado para o outro. São filhos da modernidade tanto o humanismo quanto o materialismo; o primeiro se esconde na obscuridade do espírito humano, e lá encontra a redenção; o segundo tritura todo o universo fazendo dele um relógio cego. O primeiro vem nos contar as novas - de que somos livres - enquanto o segundo vem nos contar que não existe livre-arbítrio, só causas e consequências determinísticas. E eles convivem, e coabitam, e estão lá, de braços dados na ciência.

O enforcado é sobre o potencial ganho de jogar esse jogo, de se pendurar de cabeça pra baixo no limite extremo do aprisionamento - mas não há riscos, você sabe desde o começo que não há sacrifício verdadeiro. Que não há caos contra ordem, essa é a ficção que a própria ordem construiu pra poder manter seu mundinho polar. Se amarrar na beira do penhasco do SER para poder escapar; escapar do jogo em si. Indo aos céus como cristo, descendo a terra como a prometéia vovó aranha, guardando consigo os segredos - runas - que são a própria magia. Porque é óbvio que se volta , sempre se volta - não é este o eterno retorno de Nietzsche? A dança do mundo é interminavel. Sempre criativa. Sempre repetitiva. Dá pra entrar no mundo onde ou é novo ou é repetido; ou é livre ou é preso; exatamente, e unicamente, para curto-circuitar todo esse pesadelo moderno. Que nem Willhelm Reich se perguntando - pode o desejo desejar a própria repressão? Libido contra libido; é claro que sim. Liberdade que produz prisão, prisão que é condição necessária e obrigatória da liberdade. O enforcado está preso para ser livre. É uma iniciação. Suspenso no Entre. Pregado na cruz, empalado na árvore sagrada, pego pelos pés na armadilha da vida.

Mr. Six às 19:21

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Domingo, Agosto 03, 2008

Momento Memento (1)

Nietzsche foi o primeiro hacker de que eu tenho notícia. Ele disse - "coloque-me em qualquer caixinhas que vocês quiserem que irei mostrar um jeito de escapar" - e ele pulou fora, na tora, de sei-lá-quantos milanos de pensamento cristão monótono. Hoje em dia todo mundo é too cool for school então isso nem é grandes coisas, mas cara, pensa o século XIX. A high society andava de cartolas. Poisé. Mas depois do Nietzschie vieram muitos outros, e o esquema é sempre esse - uma armadailha é preparada; novelty; alguém é capturado; novelty again; esse alguém escapa num passe de mágica, e tcharam, de repente todo mago vagabundo de esquina já tá sabendo fazer aquele truque. Mas não importa, porque a criatividade da burocracia é infinita. Uma hora esgotaram as caixas de "bem contra mal" e começaram a inventar umas mais cabulosas; chamam isso de pós-modernidade. Não to nem aí, me enfiem na caixa que quiserem - eu sempre soube que sou um hacker. Desde o momento que nasci. Me enfiem numa caixa paradoxal cuja prisão é a própria falta de prisão que eu acho um jeito de sair. É claro que sempre vem outras caixas depois - mas não importa, it's all about show bizz. O que importa é fazer espetáculo. Ou talvez isso seja mais uma caixa na qual eu estou preso, só conseguir pensar nas paradas em termos de show, alguma coisa debord-like or such. Mas é isso aí - experimente viver todos os jogos da vida como armadilhas - cujas caixas você deve burlar e conseguir escapar. Ou falando em termos uuuultra mais chiques, sistemas - sistemas e códigos, it's all about code anyway. Não é a toa que eu chamei de hacker quem faz essa parada de escapar.

Mr. Six às 17:03

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Sábado, Julho 12, 2008

Eu Não Sou Um Bom Lugar ~ Titãs

Estive tanto tempo morto, deuses! Agora respiro o ar puro da vida novamente, e quanta fome tive, e quão asfixiado estive! Pelo menos por um momento ou dois. Ainda não é hora de deixar o deserto. A ausência de posts no blog recentemente se deve simplesmente a este motivo: o deserto não é de ninguém. E eu me perdi lá dentro, porque como Danilo disse a um tempão, é se perdendo que a gente se encontra. Eu me perdi e deixei pra trás meu nome, minhas roupas, minhas vontades, meu desejo... Até que só sobrasse uma única coisinha do velho mundo comigo, uma semente de organismo: uma pequena inscrição na minha pele. Em meus pulsos estava escrito I CAN para que eu lembrassse disso quando chegasse no Outro Lado. Agora eu entendo uma coisa, e porque ISSO sempre escapa da gente, e temos de correr atrás DISSO de qualquer forma, seja através da américa de um lado ao outro como os beats ou em desertos metafísicos como eu: o Outro Lado é um devir. E quando você chega lá na verdade só chegou neste lado, o outro sempre está no outro lado, já se fez borboleta ou balão de hélio e escapou. Nada disso foi desavisado: os anúncios ecoaram pelas dunas até meus ouvidos. Um encontro mágico na frente da barraquinha de cachorro quente na terça a noite, e Eris vira pra mim e diz "você não precisa abandonar a Mágica, imbecil". Os temas que deveriam ficar só no virtual começam a escapar, e de repente estou no coreto da praça da liberdade conversando com o sucessor político do Nelson Mandela. Era uma noite propícia pra perceber o que eu já sabia. E aí hoje acordei com Learning to Live na cabeça e tava um sábado de sol maravilhoso, já tinha até esquecido do poder dos sábados com céu azul e sem nuvens. Preciso de algo que me surpreenda da mesma forma que eu me surpreendi da primeira vez que a maconha deu onda em mim, ou na primeira vez em que entrei na Up!, ou que me deixe como estive em porto de galinhas: Quero me apaixonar por alguma coisa ou alguém que destrua minha vida como eu conheço e erga outra. O medo, claro, tá sempre presente, mas a vontade de destruição tá começando a ficar mais forte. É sempre alguma coisa de um mundo que o destrói e abre portas pro próximo; isso parece ser uma regra da vida; o que vai ser desta vez? O que importa é que estou vivo, o que importa é que estou respirando, o que importa é que meu coração está batendo. O que importa é que por um momento o mundo é real. O que importa é que por um momento eu tenho uma fome tão grande que eu posso devorar a lua. Eu posso.

Mr. Six às 15:48

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Segunda-feira, Abril 21, 2008

All Tomorrow's Parties ~ The Velvet Underground & Nico

Estou capturado pelo olhar brilhante da Nico. Como uma rainha do gelo, ela enrijece a minha alma e me devora; ou me devoro; com a pose digna de uma divindade, ela caminha em minha frente rumo a um desastre. Feita pele e osso pela heroína, os dentes amarronzados, o humor apático e ácido de seus últimos dias. Seu filho injetou pela primeira vez com dezesseis anos, ensinado por ela mesma, e dois anos depois estavam ambos mortos. Uma junkie decrépita que desperdiçou sua vida e seu brilho ou uma figura genial e radiante que não podia atravessar essa vida sem fazer-se consumir pela droga? As duas interpretações estão corretas, algo me diz. A primeira desencanta tudo aquilo que vejo de belo no mundo - o espetáculo trágico dos grandes artistas da geração dos sessenta. Essa voz incessante na minha cabeça, que me arrasta e me mostra que toda alternativa radical, todo esforço xamânico pra engolir o mundo que herdamos e parir nele uma festa explodindo em fogos de artifício não passa de sujeira, doença e uma mórbida compulsão auto-destrutiva. Simplesmente grandes almas que se envenenaram até morrer, simplesmente um gigante desperdício. Desperdício.

"Não há nenhuma causa nesse mundo pela qual valha a pena dar a própria vida", me disse uma amiga, muito sensata. Certa ou errada? A minha vida é algo muito pequeno, muito parcial, um ponto de tênue equilíbrio em titânicos jogos de força - a História, o Estado, a Gravidade, a Entropia - e ainda assim, é tudo que tenho. Se a coloco como valor último, todos os valores subjugados terão de ser menos ainda - mais tênues, mais faltosos, mais transitórios. E aí está o charme das estrelas suicidas - não daquelas que simplesmente depositam um tiro na cabeça, o assassinato de si pela própria individualidade - mas das que são destruídas por ousar viver vidas de deuses, dos que se destroem porque eram grandes demais pra viver em si. E aí está o que fascina neles: eles transbordam de luz criativa, e essa luz surge do choque de infinitas espadas por dentro, faíscas e faíscas de conflitos incessantes que parem todos os deuses e monstros do estrelato. Eles não são profundos: é o medíocre romântico do cotidiano que é profudo, que contém dentro de si todos seus pensamentos e sentimentos e ainda uma enorme quantidade de espaço vazio. Pelo contrário, eles são superficiais - no sentido de que o clangor de espadas está ali, objetivado, na pele e osso, na música visceral. Estão constantemente cuspindo porque não há espaço dentro pra tanta coisa. Arte e vômito.

A Nico faz um som desértico. Não é a toa que caí nela nesse exato momento. Estou atravessando um deserto, ou uma "cloud", como costumava falar. E aquele estado onde não sei quem sou nem o que quero, nem se estou bem ou mal. Eles costumam vir entre fases maiores e consolidadas, os ups e os downs, construções e destruições. Eles costumam durar mais. Eu achei que se eu tomasse controle e matasse o rei por mim mesmo - terminando assim uma era, um Iago, eu poderia acelerar o fluxo das coisas e passar direto para a próxima. Até o Tarot me deu a entender isso, o Aeon e tudo mais. Mas não é assim: nas fronteiras de um mundo ou um território nunca vem outro, mas vem desertos, infindáveis, secos, áridos de força vital e criativa. Eu fico pensando se devo me atirar ao vazio, deixar de batalhar contra, simplesmente caminhar pacificamente até que algo volte a brotar do chão. (Deleuze falando no seu filme: "o problema não é quando você atravessa um deserto, é quando você nasce em um (...) pobres daqueles que nasceram num deserto"). Mas tenho de carregar alguma coisa, escondida ali no bolso secreto do paletó, parecer que estou nu e congelado, mas guardar uma semente de vida futura conservada no último resquício de calor do meu corpo. Isso tudo parece muito distante e abstrato, mas não pode ser mais literal. Eu não tou sabendo INTERAGIR direito com pessoas desconhecidas. Não sei como me apresentar, não tou conseguindo conversar e ser interessante. Tento puxar lá do fundo a radiância e o amor pela vida, mas não sai nada; tento ser espontâneo mas todo ato parece terrívelmente fingido. Eh uma fase de observar e observar e tomar notas, que deveriam me guiar, mas só ficam lá armazenadas pra um dia futuro. Nietzsche criou um manual prático pros tempos de doença: não é hora de criar nada nem de ser ativo em nada. A hora é de conservar, dobrar-me sobre mim mesmo, construindo mais e mais bolsões de vazio que algum dia serão o espaço no qual alguma coisa nova vai brotar.

Mr. Six às 22:04

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Terça-feira, Março 11, 2008

We Can Work it Out ~ The Beatles

Tinha alguma coisa especial funcionando há um tempo atrás. Com o tempo essa coisa foi, como diria meu grande amigo keoma, "desincrinozando" - e tudo culminou numa distância que não posso cruzar mas que continua ferindo. Eu não gosto de nada que FALTA, e por isso o título do post - por isso e porque a coisa especial em questão é exatamente esta. Eu tou falando, em alguma medida, da amizade com o danilo. A coisa especial é, como chama Nietzsche, produzir a própria destruição.
É claro que eu não tou falando de suicídio. Estou falando de vasculhar o próprio ser & vida por processos de sedimentação e encontrar aquele jeito escorregadio de se desterritorializar, de ir além. Há sempre um novo front inesperado surgindo e a tarefa é impossível - mas a gente era idiota o suficiente pra continuar fazendo. Todas as vezes que o danilo virou pra mim e afirmou que ainda estava no jogo o que ele anexava era - isso tudo é uma desterritorialização em curso, estou jogando contra mim mesmo. Estou construindo cenários e papéis e interpretações & acreditando nelas, porque é entrando na roda-da-fortuna do mundo e do tal do ego que a gente puxa o fio do labirinto. Eu sempre acreditei nele, isso sem dúvida. Implícito nisso tudo estava a idéia de que eu mantinha o jogo em curso, que a coisa tava indo em frente. Mas isso é a primeira mentira: por um ano inteiro eu estive parado olhando pra ele curtindo o namoro com a Nah, esperando que ele desse algum passo, esperando que ele fizesse o que eu tanto amo: tomar a dianteira. E é isso que está por trás da revelação da noite fatídica de fevereiro, a noite em que sentei no quarto com os dois nus semi-cobertos por um lençol branco, em meio a todo aquele cheiro de sexo & aquele bosque verde que eu não enxergava. Um, eu estive esperando por um ano pra voltar a viver. Dois, outro verdadeiro sentido de produzir a própria destruição era estar nu nos campos do senhor. Ou seja, guiar os fluxos pelo caminho-tortuoso até o corpo-sem-orgãos. Essa dupla revelação me deixou em choque - se eu continuasse meu caminho sem ele talvez não pudessemos nunca mais nos comunicar como foi. Eu estaria vivendo em extratos diferentes dos dele. Seria isso então o motivo da desincrinozação? Em algum momento eu cansei de esperar e fui em frente? Mas é verdade que ele também não parou. E ainda assim a distância foi aumentando.

A Nah. Ela entrou naquela conversa da noite fatídica e eu a joguei pra fora porque, pensava, não era o momento. Eu teria de considerar que havia um terceiro ali, que não era só eu e ele, que eu poderia ser rejeitado por ela e isso doeria demais ao meu ego. Será que ele percebeu isso? Sempre achei tão óbvio que não precisava mencionar. Os meninos não entenderam; não é rancor, isso que bate em mim. Tá, em alguns casos pode ser, mas não é rancor no caso ela. É que simplesmente não posso lidar com essa rejeição. Assim como eu não podia antes. Mas ela veio, não adiantou fechar os olhos; ficar parado numa rodovia de olhos fechados não impede o caminhão de te atropelar. O ponto de absoluta sinceridade nisso tudo é o que eu menos consigo falar: eu queria de que ela gostasse de mim. Eu posso me moldar pra tal objetivo, mas é isso que deve ser feito? Se ela quisesse assim, se ela se comprometesse a fazer o mesmo, se isso fosse importante pra ela, então seria meu curso de ação. Mas retornamos ao título do post, retornamos a aquela-coisa-especial: trabalhar a si mesmo e a vida ao redor. Trabalhar os outros - porque não? Claro que eles não vão querer, quem quer ser trabalhado, clinicalizado? Ainda mais quando não consigo nem explicar o objetivo. Eu titubeei quando o danilo perguntou o que era a Vida Como Vale a Pena Ser Vivida. É claro, esse termo não significa nada, assim como o Outro Lado não significa (e daí a dificuldade de DEFINI-LOS em termos de significância): eles só funcionam. São peças operantes & asignificantes que eu coloco num slot de imponderabilidade, do indizível, que fazem a auto-destruição e renovação constante funcionarem. (a vontade individual e consciente deve ser levada em conta, quando se trata de reformar o inconsciente - incapaz de vontade - só capaz de produção - e sempre coletivo? isso foi um grande problema que eu enfrentei com a kátia. isso foi também um grande problema que surgiu em uma sessão de ácido, o todo e o resto. isso não tem solução simples. mas acho que minha questão e a dela de alguma forma atravessa este post e interage com ele. quando pensei um tópico com esse título era sobre algo que rolou em eu-ela. continua sendo, também). O que eu quero dizer é que não posso sequer cobrar, sequer cogitar cobrar que a Nah e eu trabalhemos a relação, e desta forma & necessariamente, a nós mesmos. Não posso cobrar mas é o que eu gostaria que acontecesse, como quando disse isso a kátia. Era mais fácil quando eu e o danilo estavamos juntos nessa, e de certa forma era apenas nós dois, e havia uma concordância de base sobre como proceder na vida. (a Nah uma vez comentou, semi-irritada: vocês discutem tudo! riso gostoso até hoje porque é-era verdade).

De alguma forma a Nah é importante. Ela entrou na nossa conversa recente sobre os rumos que nossa amizade tomaria. Ela ficou engasgada na minha garganta e não deixou a coisa continuar - e sei que, de alguma forma, na dele também. Eu dei de ombros entristecido: disse que não voltava atrás de nada do que eu disse (e não voltava, mesmo): mas o que deveria ser dito é que não POSSO fazer nada a respeito. (Não faço idéia do que ele pode ou não fazer.) O que salta aos olhos é que ele tecnicamente está livre-leve-solto pra "voltar ao jogo", mais, está FAZENDO isto, e eu também aqui no meu canto, e não nos comunicamos como poderia ser. E de alguma forma eu ainda funciono simbolicamente na vida dele, e ele de alguma forma ainda funciona simbolicamente na minha, muito mais que concretamente. De longe. Eu optei por não ir ao show do dream theater que teve aqui & não foi pelo dinheiro. Foi porque o tarot me recomendou & dessa recomendação veio uma reflexão & eu percebi que não gostava de dream theater o suficiente, e iria só em busca de uma música, e essa música só vale o que vale porque ela sempre funcionou pra mim como expressão do pacto tácito de desterritorialização - com o danilo. Foi um exercício de aceitação de que tem coisas que jamais vamos compartilhar. O que sempre foi verdade: temos jeitos quase simetricamente opostos de viver a vida: eu por uma afirmação direta de amor a tudo que a vida tem de bom, na música com os pillows e com o rock psicodélico, ele por uma aceitação profunda de tudo que a vida tem de doloroso, com seus the gatherings, com seus lodgers. As duas coisas são imprescindíveis pra se produzir um corpo-sem-orgãos. Essa diferença sempre funcionou bem. É em grande parte o que fez com que tudo desse tão certo. Como duas pessoas podem de alguma forma funcionar se complementando e só adicionar uma à outra. Como as coisas podem - de certa forma - dar errado. ?

É impossível cair de uma montanha, damnit.

Mr. Six às 02:56

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Domingo, Fevereiro 17, 2008

Make It Mine ~ The Shamen

Como eu pude esquecer do que aconteceu no dia da festa? - se perguntou incessantemente um iago-de-sonho. Como eu pude perder um show do The Pillows aqui em Belo Horizonte? - se perguntou outro, dessa vez lembrando "ah é,eu tive RPG, é claro que eu abriria mão do show deles aqui pra jogar RPG, já que eu combinei, e combinado é regra, né?" E checando a playlist do show deles eram só músicas estranhas mesmo, nenhuma que me dissesse respeito, mas eu gostaria de ter visto de qualquer jeito. Conforme eu ia saindo uma borboleta bastante chata começou a voar a meu redor, e era uma bem feia! Quer dizer, as cores certas, mas estava moribunda a pobrezinha, toda machucada e estronchada & eu tinha nojo de tocar nela - se não fosse por isso, eu a mataria. A kátia ficou me puxando pra irmos mas a borboleta pentelhava, enquanto as meninas nas quais eu estava jogando idéia iam indo sem me esperar. Acordei e até agora não descobri o que é a pequena borboleta incômoda, tirando que isso tudo me lembrou Invisíveis e a Lord Fanny e sua deusa-borboleta-maia. Mas tem algo no meu caminho, e fui eu que plantei. Como quando fiquei brincando de jogar garrafas de vidro no chão, totalmente inconsequente, e de repente os cacos de vidro estavam dentro de meu sapato. Não entendi como diabos eles tinham ido parar ali, não tinha espaço pra entrarem na meia, mas era um fato. Temi estourar meu pé todo quando andasse mas eu não me machucava. Fiquei subitamente imune a cacos de vidro mas acordei meio incomodado mesmo assim. Acordar foi a solução pra quando esqueci a festa: eu descobri isso ainda sonhando. "É claro", pensei depois, "seu iago-de-sonho estúpido. Você não lembrava da festa porque ELA NÃO ACONTECEU AINDA!!", & eram tipo seis da tarde quando minha festa começaria às dez da noite. Tenho sonhado várias vezes por noite e acordado todas elas, ou tenho lembrado dos sonhos PORQUE tenho acordado, como diria o Danilo. Acho que a dificuldade em virar uma noite inteira é porque mudei meu horário de sono muito bruscamente recentemente e ainda não acostumei, nada muito profundo. Essa noite dormi quinze horas e depois do sonho da borboleta teve outro, muito mais longo e estranho. Começou com eu descendo pro centro da cidade e alguma coisa acontecendo, como uma visita a um médico. Daí tive de voltar pra casa e estava semi-drogado com alguma coisa que embaralhava meus passos e minha cabeça, coisas de doutor. E no caminho percebi uma movimentação à minha frente e saquei que eu seria assaltado. Peguei um desvio na rua e pedi ajuda a um homem, mas enquanto movia meus pauzinhos pra evitar esse destino o assaltante deu a volta e se aproximou e bateu com uma garraga no homem. Tentei chutar o saco do assaltante mas ele era enorme e eu estava zonzo. Não podia fugir. Eu estava de saia escocesa e então o assaltante comentou que só ia roubar meu dinheiro e me forçar a chupá-lo, porque pra ele eu era um viadinho ou qualquer coisa bem pejorativa. Não queria aquele destino e resisti com toda minha força, mais pela repulsa do que pelos trinta reais da carteira. Tanto fiz que ele optou não por me violentar ali, mas por me sequestrar. Apaguei e acordei depois em cativeiro. Haviam muitas pessoas e era a parte de trás de um restaurante e elas pareciam ser todas boas pessoas. Cogitei minhas chances de escapar mas não eram muitas. Talvez, se eu apelasse pro coração dessas pessoas? Mas elas pareciam nem ligar. Uma hora dei um jeito e saí correndo. Deixei a bolsa pra trás e saí descalço - acabei perdendo não só o dinheiro mas também meus all-stars novos - o que me levou a pensar inclusive que teria sido melhor o roubo e a violação momentâneos lá atrás do que um rapto completo que me custo os sapatos e o dinheiro! Mas agora eu estava correndo, e fugindo, e era um estranho lugar. De nada adiantou: acabei novamente capturado, e me indagando agora o que eu faria. Meu destino provavelmente seria pior agora que eu não tinha cooperado. Eu acordei. Tá: esse sonho, com certeza, me desafia a interpretação: não tem aquele senso óbvio dos outros de significância através do absurdo.

E aí hoje eu estava lendo A Voz do Fogo, do Alan Moore. Livrão, por onde a gente escorrega por uma louca e longa sequência durante seis mil anos de existência humana, e o fogo canta suas palavras de luz negra. Enquanto absorto, minha irmã menor me chama à tv e me mostra: um mestre-titereiro manipula duas marionetes que fazem mágica. Uma delas, vulto sombrio e mascarado similar ao Mister M, move suas mãos em frente a um quadro negro com uma pomba desenhada, apagando-a. Em seguida ela brota de suas mãos, viva e se movendo, e sai a voar.

Mr. Six às 18:30

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Domingo, Janeiro 06, 2008

Magical Mystery Tour

Eu sempre costumei fazer uma revisão de ano novo aqui no blog.

Mesmo fingindo que não é de ano novo, porque isso é meio cliché. Não importa. Este ano vim me rendendo mais do que nunca ao mero lugar comum, e bastante satisfeito com isso. Chama-se adolescência passando. Obviamente, este é o processo que me tem feito parar & sentar & observar o cosmos. Uma daquelas epocas onde nada do que penso é confiável porque tudo está sujeito a revisão. Uma daquelas épocas onde eu produzo, produzo, produzo furiosamente, escrevo até as palavras secarem na língua. Não, pensando bem, eu nunca passei por algo assim antes. Mas há um óbvio senso de conclusão: ok, isso é o que eu tirei da fase anterior. Não dá pra continuar nos mesmos termos e ir além. Eu descobri que sou apaixonado com neurociências e com a cultura underground do último século (na sequência: surrealistas - beat - hippie). Eu já saquei que tudo é consciência, que o universo é muito mais estranho do que parece quanto mais perto olhamos, que os pensamentos alienígenas estão aí e eles são a gente e rumamos para um enorme colapso dimensional. Ah, e a guerra do bem e do mal. Não esquecer de mencionar a guerra do bem e do mal.¹ Eu defini minha personalidade toda através de um conceito bem difícil de explicar que é estar "nu nos campos do senhor", ou seja, com olhos de criança que se recusam a aceitar qualquer coisa que vem de fábrica. Nesse esforço interminável de reavaliar e tecer novamente cada fibrazinha do meu ser que a genética e a minha cultura me forneceram. Eu me decidi anarquista, como a única opção para batalhar O Déspota. Eu me decidi Zen, Sufi e Bacante, engolindo o sol, bebendo até pegar fogo. Eu me decidi uma cambada de coisas e só o tempo e sua foice vão dizer o que cairá pelo caminho. Tou carregando uma mala CHEIA de broches. Tou procurando a saída com o elevador escrito "sobe".

Tou na praia olhando o mar. É Rio de Janeiro, Porto de Galinhas, São Francisco do Caralho a quatro, é sempre este momento. O mar quebra as beiradas dos meus olhos e continua a abrir, abrir asas de costa, dum jeito que não cabe na visão. Água e ar brincam de se confundir no horizonte; dionísio sobe, ressurge, em um fulgor vermelho que inspira sexo & sangue. Meu coração tá batendo do jeito que deveria. Teci casulos de palavras e, enquanto as gralhas gralhavam "só teoria", eu tava tecendo um novo adão. Sob o brilho da estrela da mudança. Olhar pro passado é difícil porque os anos se misturam e as memórias acasalam umas com as outras, mas é pra isso que mantenho diários, não? Um dia eu fui um aprendiz de cafajeste. Esse foi o meu primeiro frankstein do ano, pegando pedaços de todo mundo que deixava cair. Claro que eu já intuía que o fim estava próximo (citando a mim mesmo, "um mago sempre sabe"), tanto que naquela noite em Chokmah eu tentei expurgar o maior demônio de todos. O nome dele é Bizarre Love Triangle e aquela foi uma noite fracassada. Ah, mas isso tudo de cafajeste e Chokmah foi nas profundezas de uns Strange Days, dias de coca cola e cigarro e discussões de rpg sempre-repetidas e sempre-tediosas, preso numa casa onde o tempo não passava. Se é daí que eu saí no meu ano, deuses, não tinha como não melhorar. Mas tudo bem. Depois dos Strange Days veio A Case of You, e todas aquelas tardes e cigarros queimados ajoelhado na área de serviço da casa das meninas discutindo com a Nádia. Naquela época era muito importante pra mim o que ela achava de tudo. Eu buscava no olhar dela alguma coisa que me dissesse respeito, alguma coisa que fosse direta e pessoal, o que quer que fosse. Ela buscava em mim alguma pista sobre o Danilo, sobre o porque dele estar sempre afundando. Aqueles foram dias difíceis. Aí eu conheci a k'². Não é a toa que eu troque tanto o nome da k' com o da Nah & cometa tantos atos falhos. Elas se parecem, em algum sentido estranho que só as sequências da vida podem explicar. Não que uma seja uma metáfora, imitação ou substituição da outra, mas que as duas se encadeiam no tempo e no espaço em relação a minha vida de uma forma que faz sentido por si só num nível supra-pessoal. (Isso se eu ignorar que há uma sequência mais ampla de virginianas se sucedendo, lá deeeesde a Patrícia).

Então, a coisa da k' me deu aquele tranco que eu precisava pra sair, tirar minha cabeça de Chokmah, de Selene e Baco, da eterna posição de terceiro na qual eu me mantinha por medo, e actually VIVER alguma coisa com alguém. Viver MEUS próprios momentos kodak. É, eu não imaginava que valia tanto a pena. Eu trabalhei os sete chakras de uma vez só (os vinte e três sítios e as quatorze fazendinhas também.) Foi nesse tempo, nesses meses depois, pelos quais são incrívelmente grato à k', que eu descobri que havia superado toda uma fase de anos de vida miserável. E foi nesse clima de descoberta que eu comecei a procurar a porta de saída. Eu estive quase lá. Por uma semana eu tinha uma caosfera desenhada na mão e eu era um deus. Não havia fantasma do passado que pudesse comigo, não havia forma de matéria do presente que estivesse à minha altura. Então a onda começou a passar devagar. Comecei a cansar. Desgrenhei meu cabelo e não redesenhei a caosfera. Decidi que ainda talvez o caminho fosse ficar ainda mais selvagem, sujo e perigoso. Por um tempo me preocupei tanto com meu futuro profissional que não tive tempo pra tocar nada de evolução pessoal. Só as leituras, Deleuze acumulando na minha cabeça até fazer sentido. E aí o fim de ano emergiu e eu não consegui uma conclusão. Mas fiz uma viagem pra praia.

Tou na praia olhando o mar, e são fogos de artifício. Estou na chapel perilous, nas terras puras, nos campos do senhor. Eu disse que passaria o ano novo nu dessa vez. Nada daqui me diz respeito, nada daqui é pessoal. Passo os olhos mas não procuro mais por ser notado (ou tento não procurar). Eu disse um bocado dessa justiça divina, inumana, cega e cósmica que eu estava buscando. O tarot me sussurra palavras de luz negra. Eu sorrio. Dionísio emerge em chamas do mar como uma criança travessa.

¹que podemos assumir só como uma ficção útil, como dissequei no último post. não, não me sinto culpado por assumir ficções úteis.
²favor difereciar k' de k., que fez-se só um fantasma do passado

Mr. Six às 18:30

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It's all about set & setting, honey.

Eu estou de volta aos negócios. Vendo, troco e empresto idéias bizarras. Interesso-me por qualquer coisa de exótico, misterioso ou selvagem. Se for enviar animais, assegure-se de que hajam buracos nas caixinhas. Até mais e obrigado pela consideração.

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